Em busca de nichos

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De acordo com a definição da Wikipédia, nichos de mercado são “segmentos ou públicos cujas necessidades particulares são pouco exploradas ou inexistentes”. Quanto mais específico e incomum este conjunto de necessidades ou preferências, mais seleto o público e maior a probabilidade de, pelo menos por um período de tempo, se agregar maiores margens e agir sem a pressão acachapante das grandes companhias do chamado “mainstream” (os mercados de massa).

Todo o empresário, em algum momento, acaba buscando um nicho para chamar de seu. No segmento de embalagens flexíveis, etiquetas e rótulos, isso não é diferente. Infelizmente, o tal nicho – o “Oceano Azul” – dura bem pouco tempo, até que seja incorporado pelas grandes companhias ou mesmo perseguido e copiado pelos pequenos e médios competidores, comoditizando-se ao final.

O desafio maior não é preservar um nicho, mas descobrir novos espaços de mercado de forma constante e ininterrupta. Nesta sociedade cada vez mais tribal e multifacetada, há inúmeras possibilidades de se ofertar produtos e serviços para determinadas faixas etárias, regiões, credos, classes sociais, ideologias e assim por diante. Vivemos a era das minorias e, se por um lado, um dos efeitos colaterais é um profundo estresse social, é por outro lado e para muitos, uma oportunidade concreta de explorar as diferenças.

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Iniciamos o artigo sem grandes pretensões – com tão somente o objetivo de percorrer alguns dos espaços do nosso mercado que poderíamos considerar como sendo “nichos” de negócio. Encerramos, no entanto, com a certeza de que considerar – ao menos no que tange ao setor de flexíveis – um mercado taxativamente como nicho ou de massa, é uma simplificação ingênua. A especialização é virtualmente infinita, o que remete-nos à conclusão de que os conceitos de nicho e commodity são puramente “estados mental”.

Estruturas de alta barreira sem metais e outros nichos associados

Na maioria das vezes, prover alta barreira à embalagem de um determinado produto alimentício requer o uso de folha de alumínio ou filmes metalizados. Estes materiais impedem a passagem da luz natural ou artificial que, por sua vez, age como um catalisador de determinadas reações químicas, culminando na deterioração prematura de certas propriedades organolépticas do produto. Com o avanço dos processos de coextrusão e revestimentos funcionais, muitas soluções têm sido lançadas a cada ano. Este nicho de embalagens flexíveis alta barreira “metal-free” trazem ainda uma redução da pegada de carbono e peso das embalagens (o que afeta positivamente a questão de sustentabilidade e avaliação do ciclo de vida do produto), bem como aumentam o apelo promocional, com a possibilidade de uso das janelas para visualização do produto sem comprometer, contudo, a sua barreira.

Em que pese o fato de que o próprio segmento de embalagens barreira é ainda um nicho altamente especializado, com necessidades constantes de investimento em coextrusoras com um número cada vez maior de camadas (o que possibilita agregar características especiais em determinadas estruturas ou auferir ganhos econômicos ao maximizar-se materiais de barreira em camadas mais finas, porém em maior quantidade) e recursos tecnológicos avançados como micro layering e irradiação.

Tendo em vista que a maioria das aplicações de embalagens barreira – com ou sem películas metálicas, laminadas ou coextrudadas – destina-se ao contato direto com alimentos, muitos deles in natura ou semi processados, o segmento requer uma estrutura robusta por parte do convertedor, não só industrialmente falando, mas também no que concerne ao seu sistema da qualidade – para que se possa garantir a integridade e o tempo de vida em prateleira dos produtos acondicionados.

Uma parte significativa dos itens que demandam alta barreira são alimentos cárneos, laticínios e embutidos em geral – apresentados ao consumidor em embalagens do tipo casing, pouches fechados à vácuo ou bandejas termoformadas.

Cada uma das variantes requer estrutura de acabamento e capabilidades industriais específicas – desde máquinas mais simples e de alta produtividade para a formatação de pouches de duas ou mais soldas até os sofisticados stand-up pouches de formato regular ou de tipo “shaped”.

Produzir com a qualidade necessária os filmes de tampas e fundos das chamadas trays (bandejas) implica em coextrusoras de capas assimétricas e de orientação planiforme (conhecidas como “cast”), justamente para que se possa confeccionar filmes com a mínima variação de espessura e planicidade, necessárias no processo de envase automático de alto desempenho.

Algumas das aplicações que demandam embalagens como os tradicionais filmes de alta barreira encolhíveis à vácuo empregam uma mão-de-obra intensiva; alguns dos grandes convertedores de soluções em alta barreira, por exemplo, oferecem soluções de filmes encolhíveis em bobina, que atribuem maior produtividade e economia de mão-de-obra, possibilitando a adoção de linhas mais automatizadas e ágeis. Um mercado onde é pré-requisito oferecer ao cliente a solução de embalagem e a linha de envase ou empacotamento, em caráter de comodato, leasing ou aluguel.

A bem da verdade, “embalagens barreira” é um termo muito amplo e difuso. Embalar carnes vermelhas in natura, desossadas ou não, processadas ou defumadas, aves, queijos sólidos, queijos pastosos, frutos do mar – requerem soluções de embalagem distintas. É possível, portanto, encontrar desde os grandes convertedores de soluções barreira – normalmente empresas de grande porte e com investimentos pesados tanto em impressão quanto em coextrusão (multinacionais como Sealed Air, Bemis e Valgroup e gigantes locais como Videplast, Plaszom etc.), empresas médias atendendo mercados locais  ou clientes de menor porte (Grupo Artvac, Descartável, Maquiplast etc.) até os muito especializados, aptos por exemplo, em produzir pouches piramidais para envase de queijos cremosos como catupiry e cheddar (Grati, por exemplo).

Novas tecnologias no campo dos aditivos (bloqueadores de radiação ultravioleta, antifog, agentes microbianos etc.) e sistemas de micro perfuração controlada, têm levado o setor de embalagens de alta barreira de sua função passiva a uma postura ativa (active packaging), potencializando a vida útil do produto e prevenindo que fatores de influência externos como eventuais oscilações de temperatura (ou mesmo desligamentos) na cadeia do frio – desde os caminhões de transporte até os locais refrigerados no varejo – possam degradar os alimentos.

Embalagens flexíveis com emprego de alumínio

Se, por um lado, boa parte das estruturas de embalagem têm substituído a folha de alumínio por outros materiais, pode-se dizer que converter alumínio soft ou blister em embalagens flexíveis é uma especialidade para poucos e com um bom mercado ainda a explorar (principalmente o de medicamentos e chocolates).

Imprimir e converter alumínio exige impressoras, laminadoras e cortadeiras com adaptações específicas para manter a película livre de rugas e amassamentos. Também requer capabilidades na aplicação de primers e vernizes selantes (sobretudo termosselantes ). A maioria destes revestimentos é de alta gramatura – o que faz com que tais convertedoras tenham cilindros aplicadores e máquinas envernizadoras desenvolvidos para esta finalidade.

Mais uma vez, temos um exemplo crasso da simplificação, que nos dá uma falsa ideia de comoditização. O mercado de embalagens flexíveis com alumínio é muito vasto e técnico. Na área de medicamentos, por exemplo, há tratativas e diretrizes de embalagem para os chamados medicamentos OTC (isentos de prescrição médica) e os remédios controlados. Determinadas drogas, em função da sua periculosidade – principalmente se ingeridas por crianças – requerem a adoção de sofisticados sistemas de segurança do tipo “childproof” (lacres, selos de violabilidade etc.); aos idosos, sistemas de dispensamento preciso e dispositivos para facilitar a abertura e fechamento (easy open) por mãos muitas vezes trêmulas e frágeis.

Certos medicamentos precisam de uma maior barreira à umidade e possuem formatos ou tamanhos inapropriados para os métodos de formação de blister tradicionais. Nestes casos, há convertedores especializados em estruturas para coldform – geralmente laminados com alumínio blister e poliamida mono ou bi orientada. Tais estruturas, por conta da poliamida, possibilitam uma melhor printabilidade, inclusive. [foto blister e coldform]

Dois problemas que assolam a indústria farmacêutica (a maior compradora de embalagens flexíveis base alumínio) são a necessidade de monitoramento de carga (desvios, furtos ou ineficiências que prejudicam a logística e causam enormes danos financeiros) e o combate à falsificação.

Estes dois vetores abriram uma infinidade de “subespecialidades”, tais como alumínio impresso com holografia, microimpressão, uso de tintas e vernizes de segurança (algo parecido com o que é usado na impressão de papel moeda) e até mesmo a “impressão” de alumínio blister durante o processo de manufatura da folha, usando o próprio óleo residual de laminação para criar motivos únicos ou versões incolores – foscas ou brilhantes – do logotipo do cliente.

No Brasil, o mercado de flexíveis em alumínio não é tão segmentado quanto no exterior. Enquanto no resto do mundo, é possível encontrar convertedores gigantes altamente especializados em alumínio (Constantia Flexibles, BilCare etc.), os usuários de alumínio são, geralmente, os grandes impressores de rotogravura (Amcor, Bemis, Embalagens Flexiveis Diadema, Tecnoval, Inapel, Sonoco – Graffo, Converplast etc.) e empresas de pequeno e médio porte, com impressoras flexográficas banda média ou estreita, imprimindo as menores tiragens e os produtos de menor complexidade visual. Não raro, encontramos indústrias farmacêuticas nacionais produzindo suas embalagens, embora este movimento já tenha cessado (não só pela necessidade de foco do negócio e custos correlatos, mas pela quantidade de implicações legais e licenças de operação necessárias para acomodar uma operação de impressão com solventes em um negócio ligado à saúde humana ou animal).

Uma outra faceta deste setor de alumínio é o de tampas flexíveis para potes e frascos – geralmente iogurtes – e o de selos e discos de vedação. Ambos os mercados são nichos liderados por empresas bastante técnicas e especializadas, a exemplo da Geraldiscos e Delgo. Subsetores que exigem grande perícia em equipamentos (seladoras convencionais ou por indução) e, eventualmente, extrusoras para a produção de polietileno expandido.

Embalagens impressas em sistemas digitais

Há pouquíssimo tempo, a impressão digital começou a ser utilizada também na impressão de embalagens flexíveis. Este novo nicho permite uma mudança completa do modelo de negócios tradicional – a produção em massa de embalagens flexíveis – para a personalização em massa.

As possibilidades de uso promocional aos donos das marcas ainda são inimagináveis, uma vez que se pode produzir embalagens únicas para cada consumidor ou necessidade. Apesar do pouco tempo em uso (quando comparamos com os processos analógicos de impressão, tais como a rotogravura e a flexografia), a impressão digital já mostrou o que é capaz de realizar em campanhas promocionais incríveis e criativas como a da Coca-Cola com nomes próprios, a “Nutella única”, “Tang Álbum de Família” e assim por diante.

No exterior, já existem convertedores plenamente especializados na produção de embalagens flexíveis e rótulos em pequenas tiragens, com impressão digital e uma plataforma de atendimento ao cliente e venda (e-commerce) 100% baseada na internet.

Daqui há alguns anos, com a popularização e massificação da impressão digital no setor de flexíveis, veremos certamente desdobramentos ou nuances no modelo de negócios, como por exemplo, impressores com máquinas digitais mais velozes, menores custos por metro quadrado impresso e menor qualidade visual abocanhando uma parcela de clientes, enquanto outros com sistemas digitais mais “nobres” e caros, atendendo outros projetos e públicos. Por ora, a Camargo Embalagens e algumas empresas do segmento de banda estreita são os desbravadores deste novo negócio no Brasil.

O “arroz e feijão” do BOPP mais BOPP

Se existe uma estrutura que para a maioria dos convertedores, é considerada commodity, essa estrutura é o laminado de dois filmes de BOPP normalmente usados nas embalagens de biscoitos, salgadinhos e snacks em geral. Já dedicamos, aliás, uma edição da ProjetoPack em Revista inteira a este segmento (edição 36, março e abril de 2013).

Apesar de, visualmente, uma bobina de BOPP plano simples ser praticamente idêntica a uma de BOPP especial para aplicações de alto deslizamento (high slip), dizer que são a mesma coisa é um ledo engano. Os alimentos embalados e as próprias características de performance das linhas de empacotamento exigirão filmes mais ou menos espessos (filmes muito finos são especialidades), seláveis em uma ou nas duas faces (com forças de selagem em intensidades maiores ou não), metalizados (com função estética ou níveis de barreira óptica específicos), matte, perolados, cavitados, branco opacos, deslizantes ou extremamente deslizantes e assim sucessivamente.

Aplicações como o de embalagens para condimentos (ou mesmo snacks condimentados) podem, por exemplo, requer printabilidade maior, por conta da maior incidência de migração – mesmo nas estruturas laminadas – o que poderia afetar a película filmogênica da tinta e decrescer a força de laminação.

Algumas embalagens conterão produtos de granulometria fina (pós) e serão mais suscetíveis às cargas eletrostáticas, necessitando de filmes de BOPP com agentes anti-estáticos. Processos como a rotulagem IML (In-Mold Label) tem na estática o principal problema operacional e da geração de aparas. Fabricantes de BOPP tem produtos altamente sofisticados para este fim.

Com o aprimoramento dos processos de coextrusão e revestimentos barreira dos filmes de BOPP, uma miríade de novas aplicações tem surgido para o produto – muitas em substituição aos filmes de BOPET, por conta do seu peso e rendimento (além de preço circunstancialmente mais competitivo); o que outrora foi uma das vantagens mais significativas do BOPET, a sua estabilidade dimensional ótima para a impressão e conversão, passou a ser menos importante com o aperfeiçoamento dos dispositivos controladores de tensão e alinhadores de banda presentes em todas as máquinas modernas de processamento bobina a bobina.

O BOPET, claro, não parou no tempo, evoluindo e encontrando muitas novas áreas e aplicações (inclusive na indústria de eletroeletrônicos). No entanto, esse tema fica para uma edição posterior.

O mais importante, ao final destes parágrafos, é realmente sentir que cada subsegmento do nosso mercado tem meandros profundos, técnicos, onde se pode aportar valor ao cliente e cobrar mais por isso. Tais meandros são comumente chamados de “nichos”. Boa sorte em sua busca.

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