“A Covid-19 está nos fazendo repensar nosso problema do plástico”​

A demanda global por Equipamentos de Proteção Individual causou um aumento repentino na demanda por plásticos de uso único. A medida que os lockdowns acabarem, nós teremos a nossa confiança nos plásticos enfim reestabelecida.Tanto as empresas quanto os governos têm agora uma preocupação mais urgente e complexa: a responsabilidade em migrar para uma economia circular.

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Foi com esta frase que Dmitry Konov, Chairman do Conselho da Sibur, a maior petroquímica da Rússia, abriu o artigo publicado esta semana no site do Fórum Econômico Mundial. Trazemos aos leitores do Infopack o texto traduzido, na íntegra:

  • A demanda global por Equipamentos de Proteção Individual causou um aumento repentino na demanda por plásticos de uso único;
  • A medida que os lockdowns acabarem, nós teremos a nossa confiança nos plásticos enfim reestabelecida;
  • Tanto as empresas quanto os governos têm agora uma preocupação mais urgente e complexa: a responsabilidade em migrar para uma economia circular.

Este ano pretendia marcar uma mudança definitiva em relação ao plástico. Há dois anos, a ONU declarou a poluição plástica como uma crise global. O anúncio ocorreu mais de 30 anos desde a descoberta do Great Pacific Garbage Patch, o vórtice de microplásticos com duas vezes o tamanho do Texas, no meio do caminho entre a Califórnia e o Havaí.

Países e cidades introduziram novas proibições, enquanto cientistas e ativistas defendiam mudanças ambientais positivas. As empresas também apostam no fim da era do plástico, preparando-se para uma transição acelerada para uma economia circular e ajustando suas estratégias corporativas. O surto de coronavírus, no entanto, mudou sensivelmente este cálculo.

Um número vertiginoso de casos de COVID-19 e uma tremenda pressão nos sistemas de saúde enfatizaram que o plástico ainda é a solução mais confiável e acessível para proteção pessoal.

A menos que os avanços tecnológicos introduzam melhores alternativas, precisaremos de uma abordagem sistêmica de empresas e governos, em escala global, para abordar a questão do plástico e proteger nosso meio ambiente.

Hoje, itens de plástico estão passando por um ressurgimento repentino. O material acabou revelando-se uma alternativa sanitária e uma proteção importante contra a transmissão desse patógeno altamente contagioso. Com efeito, as proibições já implementadas foram suspensas em muitos locais, enquanto o uso de plásticos na área da saúde e serviços relacionados tem atingido novos patamares.

Embora esse novo paradigma tenha ressaltado o valor público do plástico, ele também destacou nossas vulnerabilidades à poluição. À medida que os países começam a suspender as medidas de quarentena, podemos descobrir que nossa dependência do plástico realmente aumentou – e que nosso ambiente está em maior perigo do que antes da pandemia.

As incertezas e riscos econômicos de uma segunda onda do COVID-19 podem impor limitações significativas aos serviços de coleta de resíduos.

Com a pandemia contribuindo para o aumento do uso de plástico na área da saúde e grandes volumes de resíduos impróprios para reciclagem devido a riscos biológicos em potencial, os resíduos médicos de plástico podem crescer em uma escala sem precedentes. Uma situação semelhante pode surgir na indústria de alimentos e outros serviços que haviam decidido limitar temporariamente os reutilizáveis. O setor de gerenciamento e reciclagem de resíduos interrompido também levaria algum tempo para se recuperar e não seria capaz de lidar efetivamente com grandes volumes de plástico pós-pandemia.

Acredito que agora é a hora de revisitar os debates anteriores sobre o plástico. Mesmo que baníssemos o plástico, levaria 20 anos para uma sacola plástica se decompor e 450 anos para uma garrafa de plástico. Qualquer medida também varia muito em todo o mundo, devido a diferenças políticas e econômicas. Proibir o plástico em alguns países não levaria outros a seguir o mesmo, automaticamente. Poderíamos acabar com mais divisões em todo o mundo, enquanto o ambiente continuaria suportando este peso.

Precisamos de práticas e políticas de reciclagem mais complexas contra a poluição plástica, que levem em conta extensas redes de vínculos e interdependências transnacionais.

Em épocas em que os riscos de uma pandemia global se tornaram a nova realidade, as políticas ambientais não podem ser confinadas a um punhado de países, mas devem emergir como um plano de ação universal.

Acredito que é nossa missão coletiva incentivar o desenvolvimento da economia circular, que visa eliminar o desperdício através da reutilização contínua de recursos. As empresas devem investir mais em sustentabilidade, garantindo ao mesmo tempo que cumpram suas políticas de responsabilidade social corporativa e ambientais, sociais e de governança (ESGE). As empresas também devem tomar medidas mais proativas e endossar o consumo responsável, além de aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento que ajudarão a criar novas soluções sustentáveis e de longo prazo.

Quanto tempo os plásticos descartáveis levam para quebrar no oceano?

Imagem: Statista

Precisamos implementar a infraestrutura, além de maiores incentivos regulatórios para que pessoas e empresas reciclem e reutilizem em todo o mundo. Estudos indicam que menos de 10% de todos os plásticos foram realmente reciclados. O maior volume de plástico encontrado nos oceanos – cerca de 49% – provém de plásticos descartáveis, e esse é o problema pelo qual indivíduos e empresas devem assumir a responsabilidade coletiva.

Empresas e governos em todo o mundo devem alocar mais fundos para educar as pessoas sobre como a economia circular funciona e por que elas devem reutilizar e reciclar. Devemos incentivar os consumidores a se considerarem responsáveis pelo descarte adequado de qualquer produto que comprarem e por reinseri-lo novamente no ciclo econômico. Muitas sociedades também precisam reconsiderar a cultura descartável e se tornar mais conscientes das ameaças ambientais associadas.

Por fim, devemos incentivar a produção de polímeros com qualidades recicláveis aprimoradas que facilitem a reinserção de plásticos usados em nossa economia. Há cerca de três anos, os polímeros eram considerados os principais contribuintes para a poluição por plásticos marinhos. Mais tarde, eles começaram a ser avaliados como produtos com uma pegada de carbono significativamente reduzida em comparação com outros materiais. Durante a pandemia, os polímeros começaram a ser percebidos como um material valioso para a produção de embalagens plásticas descartáveis e equipamentos médicos de proteção individual. Essas mudanças enfatizam a capacidade das empresas de assumir um papel proativo na redução da poluição, além de destacar os benefícios críticos que as indústrias podem oferecer para conforto e segurança social.

A melhor maneira de começar é reconhecer que não há solução fácil para o problema. O desenvolvimento de medidas efetivas contra a poluição por plásticos é um processo complexo e de longo prazo que exigirá uma abordagem em nível de sistema de empresas e governos em escala global. A sustentabilidade somente será alcançada priorizando nossas ações e políticas em conjunto para o maior bem ambiental e econômico de longo prazo.

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Aislan BAER. Fundador e CEO da ProjetoPack & Associados; Co-fundador da Inovagraf; Diretor da IDEAlliance Latin America

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